sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Aposentado mora sozinho em ilha catarinense há 18 anos

NATÁLIA CANCIAN
ENVIADA ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS


Para algumas pessoas, ele é o zelador da ilha. Para outras, guardião, "pai" ou, até mesmo, o "dono".
O fato é que há 18 anos o aposentado Nilton Cardoso, 84, não arreda o pé da ilha do Campeche, em Florianópolis.
Hoje ele é o único morador fixo do local, que também abriga pescadores e visitantes eventuais. Mas enquanto todos voltam para suas casas, o "guardião", que conheceu o Campeche aos 11 anos, permanece ali.
"Acho que fui tombado junto com a ilha", brinca, sobre o processo do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que reconheceu o lugar como patrimônio nacional em 2000, devido sua importância paisagística e arqueológica.
Embora concentre os afazeres em uma pequena casa de madeira, escondida da faixa de areia e do olhar dos turistas, Cardoso tem um quintal pouco convencional: um reduto de mata atlântica e inscrições rupestres, envolto por areia branca e pelo mar.
Na rotina, acorda às 5h, varre folhas do chão, caminha, pesca, vê TV, lava roupas, conversa com turistas (na temporada, a ilha pode receber até 800 por dia, o número-limite) e faz a própria comida. Sobrevive com mantimentos mandados de barco todo mês por sua mulher.
Ela, os cinco filhos e os oito netos continuaram em Florianópolis. "Mas só hoje ela já me ligou duas vezes. Liga e sempre pergunta 'O que é que tu quer?'", diverte-se Cardoso, enquanto mostra o celular preso ao pescoço com uma corda e escondido no bolso da camisa.
Marcelo Justo/Folhapress
Guardião-zelador da ilha do Campeche há pelo menos 2 anos que não pisa do continente, nem para ver a família
Guardião-zelador da ilha do Campeche há pelo menos 2 anos que não pisa do continente, nem para ver a família
VELHO GUARDIÃO
A história de "zelador" começou com a Associação Couto de Magalhães, entidade recreativa da qual Cardoso é um dos sócios e que possui licença de uso de parte da ilha, que é da União.
"Eu gostava de pescar pelas ilhas [próximas a Florianópolis]. Um dia, o mar ficou ruim e não pude voltar. Fiquei preso quase dez dias. Foi quando pensei: vou ficar."
Cardoso vive numa das quatro casas da associação, a que é aberta aos associados.

Histórias que fazem jus ao apelido de guardião não faltam. "Outro dia tinha quatro moças nuas fazendo uma filmagem. Corri com todo mundo daqui. Não sou o dono da ilha, mas as pessoas têm que manter o respeito, não é?", brinca Cardoso.
Vantagens de morar ali? "Aqui nada faz mal, e a vida é mais gostosa. Não tem ônibus nem carro para perturbar. O carro que eu tinha eu dei de presente", diz.

Um comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...