O ministro de Comunicação da Venezuela, Ernesto Villegas, pediu respeito ao estado de saúde em que se encontra o presidente Hugo Chávez, que está hospitalizado em Havana após ser submetido a uma operação em 11 de dezembro, informou nesta segunda-feira a AVN (Agência Venezuelana de Notícias).
"Não se pode brincar com a dor do povo, respeito por Chávez, por seus parentes e pelo povo", disse o ministro durante um discurso que realizou na noite de domingo a um programa da estatal VTV (Venezolana de Televisión).
Villegas pediu que o povo venezuelano deixe de lado os rumores que são divulgados através das redes sociais, especialmente o Twitter.
30.jun.11 - De Havana, Chávez conta pela TV que tem câncer e que havia sido operado para a retirada de um tumor no dia 10
"Não acreditem no que está sendo escrito no Twitter, não se pode brincar com a saúde do comandante Chávez, é um assunto que tem repercussão na vida de terceiros. Vamos assumir isso com muita responsabilidade".
Além disso, Villegas afirmou que manterá o povo venezuelano informado sobre a evolução do presidente em seu processo de recuperação.
O pedido de Villegas foi produzido horas depois que o vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, informou em cadeia de rádio e televisão desde Havana que o estado de saúde do líder "continua sendo delicado" após a aparição de novas complicações que já estão sendo tratadas.
Após relatar que "alguns minutos" antes que tinha estado com o presidente, Maduro afirmou que durante sua chegada à ilha foi informado sobre as novas complicações que teriam surgido como consequência da infecção respiratória que foi diagnosticada em 17 de dezembro.
O vice-presidente admitiu que o processo de Chávez não está "isento de riscos" e destacou que o líder faz frente a "esta difícil situação" graças "a sua fortaleza física e espiritual".
Maduro, que assumiu o cargo de presidente durante a recuperação de Chávez, permanecerá "nas próximas horas em Havana" junto a Chávez e sua família "muito atentos ao processo de evolução de sua situação atual".
Após confirmar em 8 de dezembro a reaparição do câncer que havia sido diagnosticado em meados de 2011, em apenas dois dias Chávez viajou para Havana, onde foi submetido, em 11 de dezembro, a uma complexa operação cirúrgica.
Chávez deveria assumir um novo mandato para o período 2013-2019 em 11 de janeiro, após conseguir sua terceira reeleição consecutiva no pleito de 7 de outubro, embora seu estado de saúde tenha aberto um debate sobre o mecanismo constitucional que deve ser aplicado.
Reconheça seus limites e não se esqueça: sempre é tempo de recomeçar
Mais um ano novo se aproxima. Neste tempo, a esperança se renova e, com isto, fazemos uma série de promessas para nós mesmos; fazemos planos, determinamo-nos a fazer uma série de coisas como: perder peso, estudar, fazer exercício físico, etc. Porém, muitas vezes, só nos recordamos destas promessas quando chega o final do ano e paramos para fazer um balanço do que vivemos. Neste momento, algumas pessoas simplesmente dizem para si mesmas que "desta vez vai ser diferente", e fazem novos planos. Outras, ao se depararem com seus planos não realizados, sentem-se fracassadas e frustradas.
Precisamos fazer uma boa análise do que vivemos no decorrer do ano, verificarmos quais as metas atingimos e o que faltou. Naquelas que não alcançamos, precisamos ter coragem para identificar o que realmente foi falha nossa, reconhecer os erros e os limites, e o que foi resultado de situações fora do nosso controle, como doenças por exemplo.
Naquilo que falhamos, o que realmente faltou? Muitas vezes, os planos que fazemos, no final do ano, são tomados no calor da emoção, movidos pelo impulso ou pela influência de amigos ou até da mídia, faltando um verdadeiro comprometimento interior, um planejamento. Planos ditos “da boca para fora” são repetidos ano após ano, sem chegar a nenhum resultado. Ficar se lamentando, reclamando de si mesmo e do mundo não leva a nada. É preciso uma atitude ativa e corajosa.
Convido você, então, para olhar para dentro de si e responder: o que realmente eu quero para 2013? Com o que realmente eu vou me comprometer? Mudança de vida exige comprometimento, exige renúncia e esforço. Metas e planos não são alcançados sem luta. Depois de responder esta pergunta, você precisa pensar: "Quais são os passos que preciso dar? Precisarei buscar ajuda de alguém ou de algum profissional?" Ou seja, se você quer chegar ao final do ano com seus planos realizados, é necessário planejar o que você vai fazer. Um cuidado que você precisa tomar é o de não se encher com muitos planos e metas, pois o risco de chegar ao final do ano e deparar-se com a mesma situação é grande.
Independente de qualquer coisa, saiba reconhecer os seus limites e falhas, e nunca se esqueça que sempre é tempo de recomeçar.
Que você tenha um 2013 feliz e abençoado.
Manuela Melo psicologia@cancaonova.com Missionária da Comunidade Canção Nova, formada em Psicologia, com especialização em Logoterapia e MBA em Gestão de Recursos Humanos.
Recordar o ano que se despede e preparar o coração para outro que já bate à porta. Esse é o sentimento que toma conta das pessoas neste período. É o momento de renovar os compromissos, fazer planos, limpar o coração e deixar que o Menino Jesus recém-nascido reine em todos os âmbitos da vida humana.
Além da reflexão do que deu certo ou errado, existe ainda a expectativa para novos projetos e sonhos. Em artigo, o Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, afirma que, a cada ano, os cristãos devem sintetizar as ações concretizadas, sempre movidos pela vontade de Deus. “Eis, pois, um oportuno programa para nossa vida: fazer uma síntese de tudo o que vivenciamos, para nos enriquecer com os passos já dados. Para que esse nosso trabalho seja completo, é oportuno imitarmos Maria Santíssima. Em duas ocasiões o evangelista Lucas nos conta que, diante de situações que a deixaram surpresa, ela guardou tudo em seu coração, meditando”.
Também o arcebispo de Brasília, Dom Sergio da Rocha, fez seus votos para 2013: “Com louvor a Deus e gratidão a todos os irmãos e irmãs em Cristo, desejo-lhes um Feliz Ano Novo, com o dom da paz que Jesus nos oferece, nos braços de Maria, a Santa Mãe de Deus!”.
Para comemorar o Dia Mundial da Paz, celebrado nesta terça-feira, 1º, a arquidiocese de Brasília realiza nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro celebrações Eucarísticas, que serão presididas por Dom Sergio da Rocha, e pelo padre George de Albuquerque, responsável pela Catedral.
Já a Caritas Brasileira inicia o novo ano com ideias claras: “O nosso pedido para 2013 não poderia ser outros: incluir mais e mais pessoas nessa rede de esperança e espalhar o espírito solidário pelo país, reduzindo a desigualdade e promovendo a inclusão social. Esse era o sonho de Dom Helder Câmara, fundador da Caritas, e é também o nosso! O desejo de dias melhores para milhares de pessoas. Afinal, somos transformação.”
A Coordenadora Nacional da Pastoral da Criança, irmã Vera Lúcia Altoé, também deixou sua mensagem para o ano que se aproxima: “Estamos iniciando mais um ano. Neste ano de 2013, a Pastoral da Criança comemora 30 anos de vida e missão. Desde o começo dos trabalhos até hoje, percebe-se o quanto a Pastoral da Criança cresceu, se expandiu e se fortaleceu como uma instituição presente na vida cotidiana do nosso povo em milhares de comunidades. São 30 anos de memórias, reflexão e compromisso. Neste ano de 2013, vamos todos, através das visitas domiciliares, nos dias da Celebração da Vida, nas reuniões da comunidade, levar às famílias uma mensagem de paz para que as crianças acompanhadas possam viver e crescer num ambiente de paz”.
E entrando no ritmo da JMJRio2013, o jovem estudante do Rio Grande do Sul, frei Malone Rodrigues, da Ordem dos Frades Menores, que será um voluntário na Jornada, dirigiu-se diretamente à juventude brasileira. “Desejo aos jovens que não percam a esperança. Mesmo hoje, diante das dificuldades que a gente vê nas famílias, nas comunidades, ou nos países em confrontos, guerras, não percam a esperança da paz. Nós, como jovens, somos promotores, nas nossas atitudes, nas nossas mudanças no dia-a-dia é que a gente vai conseguir ter um futuro melhor de paz e fraternidade” .
Os seis homens presos na Índia por suspeita de terem participado de um estupro coletivo contra uma estudante de 23 anos, que morreu na noite de sexta-feira (28) vítima dos ferimentos, foram formalmente acusados de assassinato pela polícia, segundo anúncio oficial feito neste sábado (29).
A universitária indiana, cujo estupro coletivo gerou uma onda de protestos na Índia, morreu na madrugada deste sábado em um hospital de Cingapura, onde estava internada. "A paciente morreu em paz às 4h45 (locais) do dia 29 de dezembro de 2012", afirmou o centro hospitalar Mount Elizabeth em um comunicado.
No momento em que a jovem morreu, vários diplomatas da embaixada da Índia em Cingapura estavam no hospital. Segundo a imprensa local, os diplomatas já preparavam a transferência do corpo da jovem a Nova Délhi.
Ao longo da sexta-feira, o hospital divulgou notas sobre o estado de saúde da vítima. "A paciente segue em um estado extremamente crítico. Continua na unidade de terapia intensiva do Hospital Mount Elizabeth. Nosso exame médico mostra que, além do ataque cardíaco sofrido, ela sofre de infecção nos pulmões e no abdômen, além de uma fratura cerebral", dizia o comunicado.
Seis homens estupraram a jovem no ultimo dia 16 de dezembro, quando ela seguia viagem em um ônibus. Depois, os agressores lançaram a menina à rua com o veículo em movimento, o que lhe causou graves fraturas internas.
A agressão gerou uma onda de protestos populares em Nova Délhi. Os manifestantes entraram em confronto com a polícia. Um oficial foi morto e 143 pessoas ficaram feridas. Depois do anúncio da morte da jovem, milhares de indianos foram às ruas para pedir punição aos culpados. A polícia da Índia pediu aos manifestantes que façam os protestos de maneira pacífica.
Os seis implicados na agressão sexual, incluído o motorista do ônibus, foram presos e todos eles comparecerão perante a Justiça no próximo dia 3 de janeiro, depois que a pressão popular obrigou às autoridades a agilizar o andamento do processo.
A investigação oficial do caso também deverá esclarecer as circunstâncias em que o policial morreu durante a repressão dos protestos do último domingo (23). Segundo a autópsia, o agente morreu de um ataque de coração após ter sofrido "múltiplas lesões internas".
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, sancionou nesta sexta-feira (28) a lei que veta a adoção de crianças russas por pais americanos. A lei, que foi aprovada no Congresso russo por unanimidade no começo da semana, também proíbe atividades de organizações que tratam de doações por pais estrangeiros, além de suspender um acordo bilateral entre Rússia e Estados Unidos.
Mais de 3,4 mil crianças russas foram adotadas por pais estrangeiros em 2011. Cerca de um terço dessas crianças foram para os Estados Unidos. Segundo analistas, no entanto, o destino das crianças adotadas não foi o principal motivo para a aprovação da lei – o proibição foi proposta como uma forma de retaliação ao governo americano.
Segundo a BBC, a proibição é uma resposta, por parte do governo russo, da Lei Magnitsky, aprovada pelos Estados Unidos, que impõe sanções econômicas para oficiais russos acusados de violação de direitos humanos. Os EUA aprovaram a lei após a morte de Sergei Magnitsky, um advogado que lutava contra a corrupção na Rússia.
A morte de Magnitsky se tornou um símbolo da luta contra a corrupção na Rússia, e azedou as relações com os EUA. Magnitsky advogava na empresa HCM, sediada em Londres, e denúnciou a existência de uma rede de corrupção envolvendo autoridades russas que teria desviado mais de US$ 200 milhões. Após fazer a denúncia, ele foi preso pelas autoridades, acusado de sonegação de impostos, e morreu em 2009.
Ao assinar a lei que proíbe as adoções, Putin disse que não via motivos para vetar a lei. “Há vários lugares no mundo com padrões de vida mais altos do que aqui. Por acaso nós vamos mandar todas as crianças para lá? Será que deveríamos todos nos mudar também?”, disse, em tom de ironia.
No início do século XX, o escritor Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) cumpria a função de papa das letras brasileiras. Assim o definia um amigo, o diplomata Joaquim Nabuco. Com Nabuco e outras personalidades de seu tempo, Machado não se comportava apenas como guru, chefe da religião literária e presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele também trocava cartas num tom íntimo e intenso. Esse seu lado desconhecido agora começa a ganhar contornos mais nítidos, com a aparição de documentos inéditos e a reunião em ordem cronológica das cartas que Machado escreveu e recebeu. O recém-lançado volume da Correspondência de Machado de Assis, tomo IV – 1901-1904(Academia Brasileira de Letras, 492 páginas, R$ 60), coordenado pelo escritor e acadêmico Sergio Paulo Rouanet com as pesquisadoras Irene Moutinho e Sílvia Eleutério, revela a face humana, emotiva e generosa de um escritor considerado por seus contemporâneos como cínico, niilista e avesso à vida social – máscara que ele mesmo ajudou a criar e se mantém até hoje.
Essa imagem resiste porque Machado destilava ironia, meias palavras e sobretudo descrença em seus romances. O retrato de Henrique Bernardelli, de 1905, hoje exposto na ABL, para o qual Machado posou em fotografia, acentua essa aura de austeridade. Mas o homem Machado era diferente. Nabuco (1849-1910) escreveu a Machado de Londres em 8 de outubro de 1904 e afirmou que existiram duas faces no amigo: “Você pode cultivar a vesícula do fel para a sua filosofia social, em seus romances, mas suas cartas o traem. Você não é somente um homem feliz, vive na beatitude como convém a um Papa. Agora não vá dizer que o ofendi e o acusei de hipocrisia, chamando-o de feliz”. Pena que a plenitude e a felicidade de Machado apontadas por Nabuco terminaram um mês depois dessa carta, quando ele enviuvou.
O quarto volume da correspondência machadiana – que vem sendo publicada desde 2008 – vai de janeiro de 1901 a dezembro de 1904. Compreende 252 documentos, entre cartas, cartões-postais, telegramas e bilhetes. Desses, 118 foram escritos por Machado, 46% do total do volume. Seus principais correspondentes são, além de Nabuco – com 20 cartas, sempre em missão diplomática –, o jovem protegido Magalhães de Azeredo (1872-1963), emissário brasileiro no Vaticano, com 33 cartas; o crítico José Veríssimo (1857-1906), com 30; e o amigo de juventude, o jornalista Salvador de Mendonça (1841-1913), 12, o único que ainda trata por “tu”. “Machado mostrou uma faceta a cada um deles”, diz Sílvia Eleutério. “Exercitava a verve com Veríssimo, o instinto paternal com Azeredo e lembrava o passado com Mendonça.” Destilava as habituais ironias, mas também trocava confissões e prestava favores como “pistolão” no serviço público ou como autor de uma resenha anônima e elogiosa (leia o quadro abaixo). Da multidão de burocratas, colegas e candidatos à cadeira de “imortal” que lhe escreviam, destacam-se o historiador Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) e o romancista Graça Aranha (1861-1931).
“Machado está mais presente no novo volume”, diz Sergio Paulo Rouanet. “Isso dá uma dramaticidade e um prazer de leitura maiores. Faz lembrar romances epistolares do século XVIII, como Clarissa (1748), de Samuel Richardson, ou La nouvelle Héloise (1761), de Rousseau, que Machado apreciava, embora nunca tenha escrito algo no gênero. As cartas ressuscitam os diálogos entre um guru e seus seguidores.”
Elas também trazem Machado com mais de 60 anos, em dois momentos diferentes. Até 1903, ele estava cansado e ocupado com os trabalhos na Academia e da Secretaria de Viação do Ministério da Viação, Indústria e Obras Públicas, da qual era diretor-chefe da contabilidade. Mesmo assim, mostrava entusiasmo pelas reuniões da Academia e da Panelinha (o grupo gastronômico que promovia almoços dominicais). Dava atenção às carreiras e às necessidades dos amigos. No segundo momento, a partir de janeiro de 1904, a alegria de viver pareceu minguar. De janeiro a novembro, sobrevieram a doença e a morte da mulher, Carolina, após uma convivência de 35 anos. Ela morreu de “febre intestinal”, o termo do tempo para câncer no intestino. A morte da amada Carola – com quem, em 1869, ao se casar, Machado fizera o pacto de “incendiar o mundo” – abalou-o e, ao mesmo tempo, fez com que passasse a tomar providências em relação a sua morte e à continuidade das atividades da ABL. Alegrias e tristezas fizeram que escrevesse mais que nunca.
Ao longo desses quatro anos, mostram as cartas, ele se dividia entre os cuidados com Carolina, a pauta da Academia, a relação com os escritores e a edição e lançamento de seus livros. São desse período Poesias completas, de 1901, e o romance Esaú e Jacó, de 1904. Depois de muito empenho político, conseguiu uma sede para a Academia em 1904, na Lapa, onde ela funcionaria até 1923. Naquele ano se transferiu para o prédio atual, o Petit Trianon. Lutou junto ao governo, sem êxito, para que bustos de escritores fossem erigidos 15 anos depois da morte do homenageado, para evitar entusiasmos precoces. Dava a palavra final nas eleições da academia. Em 1903, defendeu a eleição de Euclides da Cunha contra a opinião do acadêmico Graça Aranha. Os rivais haviam publicado os dois livros mais festejados de 1902: Euclides, Os sertões, e Graça, o romance Canaã (1902). Nessa eleição, um protegido de Machado, Magalhães de Azeredo (cujas hesitações e tom lamurioso dizem ter inspirado Bentinho, protagonista de Dom Casmurro), sofria em dúvidas e lhe perguntava: “Qual é o nosso candidato?”. Em contato com o editor parisiense Hippolyte Garnier, indicou poetas amigos, negociou contratos e corrigiu provas. Mas continuava modesto. Tão logo seus livros chegavam às livrarias, comentava com gratidão as resenhas dos amigos, como se sua literatura não fosse extraordinária e não fosse ele “o papa das letras nacionais”.
Machado não interrompeu a atividade quando entrou de licença por um mês, no início de 1904, para levar Carolina à cidade serrana de Nova Friburgo, numa tentativa inútil de salvá-la. Lá, em consideração à mulher portuguesa e católica, o cético Machadinho, como Carolina o chamava, frequentou missas na Matriz. A atitude causou espanto em José Veríssimo, que ironizou a “carolice” do amigo, uma referência sutil ao apelido de Carolina. Machado respondeu que a suspensão do ceticismo foi causada por uma inflamação nasal (“defluxo”) passageira. Com a morte de Carolina, em outubro, ele entrou em depressão. Mas não parou de escrever. Adotou os amigos como família.
A correspondência voltou a se intensificar de 1905 até sua morte (de câncer na garganta), em 1908. Esse último período constará do quinto volume das cartas, a ser lançado no fim de 2013, com 306 documentos. “É o período da solidão”, diz Sílvia Eleutério. “Ele dependia dos amigos e se mantinha inconsolável.” Segundo Irene Moutinho, Machado solitário ficou mais carinhoso. Irene descobriu uma carta de 1905 em que ele agradece a uma menina, Alba Araújo, filha de um casal amigo, por tê-lo presenteado com um gato, que ele batizou de Gatinho Preto – pseudônimo que ele já usara em manuscritos. “É possível estudar a relação de Machado com os animais”, diz Rouanet. Machado e Carolina tratavam como filha Graziela, uma cadela tenerife. Ele se mostra carinhoso com os cães no conto “Miss Dollar” e no romance Quincas Borba. No conto “A causa secreta”, porém, descreve a tortura de um rato.
Formular analogias entre vida e texto é um jogo infinito para Rouanet, Irene e Sílvia. Juntos no projeto de decifrar a letra miúda de Machado desde 2006, eles se chamam de “trio de malucos”. Avaliam que os cinco volumes totalizarão 1.146 cartas. “Se não descobrirmos mais coisas”, diz Rouanet. “Nosso sonho é achar manuscritos nas mãos de um colecionador oculto.” Às descobertas documentais sobre Machado se somam as interpretações psicanalíticas de Rouanet sobre ele, suas palavras e as relações com seus contemporâneos. “A gente não revoluciona, mas contribui para a pequena história machadiana”, diz ele. A modéstia de Rouanet não faz jus à excelente recepção que a obra tem obtido. Segundo o professor inglês John Gledson, um respeitado estudioso machadiano, a edição da correspondência torna urgente uma nova biografia de Machado. Que personagem sairia dela? O trio se entreolha, mas não arrisca um palpite. “Uma coisa é certa”, afirma Rouanet. “Será diferente da imagem que Machado ajudou a construir.”