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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A QUEDA


Grecianny Carvalho Cordeiro*

A vida é feita de sucessos e de fracassos, de quedas e levantadas. Caminhar pode parecer fácil, mas o grande valor está em saber cair. O livro A QUEDA, do jornalista Diogo Mainardi fala disso. É um relato comovente do nascimento de seu filho Tito que, por sucessivos erros médicos dos profissionais do hospital de Veneza, no Campo Santi Giovanni e Paolo, veio a sofrer uma paralisia cerebral, provocando-lhe diversas sequelas, especialmente de natureza psicomotora. O livro é emocionante, tocante, profundo, porque não é nada fácil falar daquilo que mais nos machuca e traz dor. Diogo Mainardi consegue ainda, com toda a maestria, relatar sua história pessoal e familiar fazendo uma ligação com fatos históricos, com a arte, com a filosofia, mostrando que tudo é circular e tudo acaba trazendo alguma consequência para a vida de Tito. O seu amor por Tito, incondicional, fervoroso, trouxe-lhe a certeza de que sempre estaria ao seu lado, que o amaria para sempre e para sempre o acudiria, não importando quantas quedas pudesse ter. De tanto amar o filho, passou também a amar a sua paralisia cerebral. Esse livro mostra um Diogo Mainardi além da acidez dos comentários tecidos em seus artigos, quando colunista da Revista Veja, mostra um homem sensível, um pai apaixonado.

*Promotora de Justiça

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Como lidar com o desejo?


Lou e Margot estão casados há cinco anos. Os dois se amam, mas a  fase das borboletas no estômago já se foi. Eles vivem uma rotina tranquila e amorosa, até que aparece Daniel, um novo vizinho todo charmoso. E aí vocês já podem imaginar o que acontece.
O novo filme de Sarah Polley, Entre o amor e a paixão (Take this Waltz) fala sobre o desejo e a dificuldade que temos em negar esse sentimento. Margot, interpretada por Michelle Williams, é uma escritora de 28 anos que ama o marido, vivido por Seth Rogen. “Lou é uma das pessoas mais doces e amáveis que já conheci”, diz Margot em uma das cenas.  Mas isso não impede a atração enorme pelo novo vizinho.
Margot passa boa parte do filme sem saber o que fazer. Ela não quer trair o marido, mas também não consegue fugir das investidas de Daniel. A angustia da personagem é tão real que chega a sufocar e a dar pena. “A vida é sempre um pouco vazia e depressiva. Algumas pessoas preenchem esse vazio com religião; outras apenas o aceitam, e conseguem ser felizes assim. E tem aquelas que preenchem esse espaço com uma busca constante por algo novo e apaixonante. É disso que esse filme se trata”, disse Sarah em uma entrevista ao Guardian.
O que me agradou nesse filme é o fato de ele mostrar o “depois do final”. Como é de se prever, em determinado momento Margot decide com quem deve ficar. E normalmente o filme acabaria aí, e nós  ficaríamos imaginando que eles foram felizes para sempre (bendita influência dos contos de fadas).
Mas a diretora nos mostra o que vem depois dessa escolha. E, se ela foi certa ou não, segundo Sarah, fica por conta de cada um. “Vi reações completamente opostas na estreia. Pessoas apoiando a decisão de Margot e outras criticando. Isso é muito legal, ver como um mesmo filme pode gerar visões tão distintas”.
Entre o amor e a paixão estreia em novembro, em todo o Brasil.
Natália Spinacé é repórter de ÉPOCA em São Paulo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

MANUAL DA PAIXÃO SOLITÁRIA


Grecianny Carvalho Cordeiro*


Com a morte de Moacyr Scliar, perdeu o Brasil um grande escritor. Num país de não muitos leitores, a própria literatura nacional sempre enfrentou uma séria dificuldade em incentivar a leitura da “prata da casa”, com exceção dos clássicos nacionais, com os quais nos deparamos – pelo menos obrigatoriamente – na fase escolar.

Na época de escola, os clássicos da literatura nacional possuem um sabor diferente, quase amargo, talvez pelo simples fato de se constituírem em leitura obrigatória. No entanto, quando relidos a posteriori, na maturidade, de forma espontânea, esses livros passam a ter um sabor doce, propiciando uma dimensão nova e fabulosa em nossa vida. Machado de Assis, José de Alencar, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Jorge Amado... são autores cujas obras transcendem o tempo, daí porque são considerados clássicos.

Mais recentemente, ao me deparar com a leitura de Moacyr Scliar, no seu romance “Manual da Paixão Solitária”, descobri um livro para ser devorado imediatamente, inteligente, interessante, empolgante e também emocionante.

Uma mesma história, um mesmo livro, contado em diferentes visões, por dois professores, especialistas em estudos bíblicos, os quais contam a história relatada no Gênesis, de Judá e da mulher Tamar.

A bela Tamar se casa com Er, o filho mais velho de Judá, o qual vive uma profunda crise existencial, relacionada à sua duvidosa virilidade e a sua tendência homossexual. Er morre e o irmão Onan se casa com Tamar, por quem nutre confusos sentimentos de ódio e amor.

Shelá, o filho mais novo de Judá, nutre uma paixão solitária por Tamar, acreditando que um dia será o seu esposo natural, em virtude do falecimento dos irmãos, até que uma reviravolta acontece. Por Tamar, Shelá vive constantemente a se masturbar, acreditando ser o inventor da masturbação.

Tamar não consegue engravidar, tal como reza a tradição, e se vê obrigada a traçar um plano espetacular para vingar as humilhações sofridas pelo sogro, do qual vem a ter um filho.

Moacyr Scliar consegue adaptar um enredo bíblico a uma história extremamente atual, inclusive, abordando assuntos considerados “tabu” – naquela época – e mesmo hoje, ainda não tratados de forma tão aberta, como a homossexualidade e a masturbação. Tudo isso numa linguagem direta sem ser jocosa, muito pelo contrário, até poética.

Moacyr Scliar se foi, mas deixou uma obra literária maravilhosa, a qual se encarregou de torná-lo imortal.
*Promotora de Justiça

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

BOLSA DE MULHER


Grecianny Carvalho Cordeiro*

“Bolsa de Mulher” é o título do recém-lançado livro de Simone Pessoa, publicado pelo Armazém da Cultura, autora de vários livros, ex-cronista do Jornal O Povo, Coordenadora do grupo Cadeiras na Varanda, dentre tantas outras atividades.

Conforme dito pela própria autora, em seu prefácio, esse livro teve por inspiração uma bolsa de mulher, objeto indispensável ao universo feminino, onde colocamos coisas imprescindíveis e coisas que talvez nunca sejam usadas, mas poderão ser.

Mas a “Bolsa de mulher” de Simone Pessoa carrega muito mais coisas que possa crer a nossa vã filosofia, ali existe de tudo e ali se fala de tudo, descortinando-se “temas palpitantes como amizade, casamento, questões domésticas, morte, ética, comportamento, preconceito, vaidade, visão de futuro, envelhecimento, solidão”, e outros assuntos comuns a todo ser humano, seja homem, seja mulher, mas sob uma visão particularmente feminina.

Quem se lembra dos chegadinhos, aquele doce fino parecido com hóstia que o homem passava vendendo fazendo barulho com um triângulo? Ou o caldo de cana com pastel ou ainda o algodão doce feito no carrinho? Doces lembranças, certamente, de uma era em que se comia pão com ovo sem qualquer vergonha, sem qualquer temor de “pagar mico” por ser coisa de pobre. Hoje, soa bem mais bonito gostar de um sanduíche de pão integral com peito defumado de peru. Sim, porque hoje nos deleitamos em conversar com amigos sobre coisas capazes de impressionar, de ostentar, de mostrar que, de algum modo, se está em situação de vantagem em relação ao outro, mesmo que um amigo.

É sobre tudo isso que falam as crônicas de Simone Pessoa, não se tratam de um conjunto de palavras bem colocadas, mas de palavras escritas que falam pela singeleza e pelos assuntos que nos tocam, que nos fazem refletir, questionar sobre a nossa curta existência e dela procurar retirar o melhor proveito, vendo beleza em tudo, em especial na simplicidade.

Simone Pessoa segreda ao leitor os motivos pelos quais escreve: “pelo apego à vida, na tentativa vã de afugentar a morte. Ah! Que vontade de permanecer!... Esticar a palavra, postergar o fim. Sem esgarçar, sem esmorecer! Transcender o hoje no leitor do amanhã. Ele, do outro lado da margem, debruçado sobre essas linhas, a entrever o momento em que escrevo. Quem sabe, sorria o leitor ou não; restrinja-se a franzir a testa. Incompreensão, rejeição? Pouco importa. Ainda assim, me agarro, meu bote de salvação!”.
*Promotora de Justiça
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